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Editora: 12min
Por quase duas décadas, o Hamas foi mais do que um grupo armado dentro da Faixa de Gaza. Foi o síndico do território. Emitia contracheques, recolhia lixo, mantinha hospitais abertos, cobrava impostos e decidia quem ocupava as repartições. Na segunda-feira, esse arranjo chegou ao fim. O grupo anunciou a dissolução do Comitê de Emergência, o órgão que administrava a região desde 2007, e disse estar pronto para entregar a máquina pública a um comitê de tecnocratas.
O Hamas assumiu Gaza em 2007, depois de vencer as eleições legislativas do ano anterior e expulsar à força o movimento rival Fatah. Desde então, funcionou como um Estado paralelo, com a gestão civil, a segurança pública, as escolas, a saúde e a arrecadação sob o mesmo guarda-chuva político.
O que caiu agora foi o Comitê de Emergência, estrutura que servia na prática como o gabinete do grupo. Mohammed al-Farra, que o chefiava, entregou a renúncia. O Hamas afirmou ter concluído as etapas para transferir a autoridade e garantiu que os servidores técnicos permanecem nos postos. Quem opera hospitais, escolas e serviços de rua não sai. Muda o teto político, não o corpo técnico.
Entra em cena o Comitê Nacional para a Administração de Gaza, conhecido pela sigla em inglês NCAG. É um corpo de transição formado por técnicos palestinos apresentados como neutros e apartidários, com a missão de reconstruir os serviços essenciais e cuidar da vida civil.
À frente dele está Ali Shaath, engenheiro nascido na região e ex-funcionário da Autoridade Palestina. O NCAG foi criado em janeiro de 2026, sob a Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU, como parte do plano de paz de vinte pontos patrocinado pelos Estados Unidos. A supervisão cabe ao Conselho de Paz, órgão internacional que o presidente Donald Trump estabeleceu ao intermediar o cessar-fogo entre Hamas e Israel, em outubro de 2025.
Na prática, porém, o comitê ainda não opera de dentro de Gaza. Está sediado no Cairo, e Israel até agora não autorizou a entrada de seus integrantes. Shaath sinalizou que só assume de vez quando existirem condições reais, entre elas uma autoridade única governando sob um só marco legal e uma única força de segurança respondendo a ela.
O gesto não resolve o que realmente pesa. Analistas ouvidos pela imprensa internacional leram o anúncio como um movimento de peso político, mas em boa medida simbólico. Andreas Krieg, professor do King's College London, avaliou que o Hamas abre mão do fardo visível de administrar uma Gaza destruída sem abrir mão dos instrumentos que lhe permitem moldar o que vem depois. Para ele, o poder da organização nunca esteve apenas nos escritórios e nos salários, mas nas armas, nas redes de segurança interna, na infraestrutura de túneis e na ideia de que a resistência armada segue legítima. Nada disso apareceu no comunicado.
Do lado israelense, a reação foi de ceticismo aberto. Um funcionário do governo, sob anonimato, classificou a renúncia como manobra sem significado, já que os quadros do Hamas seguem em suas funções. O chanceler Gideon Sa'ar foi além e descreveu a decisão como tentativa de replicar o modelo do Hezbollah no Líbano. Na leitura dele, os técnicos cuidariam da coleta de lixo e dos serviços municipais enquanto o Hamas permaneceria como potência militar nos bastidores.
O impasse é antigo. Israel condiciona qualquer paz duradoura ao desarmamento do Hamas, e essa exigência é o coração da segunda fase do cessar-fogo. A organização se recusa a entregar o arsenal antes que a primeira fase seja cumprida, incluindo a entrada de ajuda humanitária considerada suficiente, o retorno dos deslocados e a retirada israelense.
O Conselho de Paz respondeu reafirmando a fórmula que virou lema: uma única autoridade, uma única lei e uma única arma. Em publicação no X, disse ter tomado nota da mudança, mas avisou que julgará por ações, não por promessas. Na prática, exige que todo o armamento em circulação passe ao controle do NCAG, como preveem o plano de paz e a Resolução 2803.
A escala do problema aparece nas contas. O comitê fala em montar uma força policial de transição com cerca de cinco mil agentes. O Hamas mantém uma corporação estimada em torno de dez mil integrantes e, segundo relatos, tenta encaixar parte desse contingente na nova estrutura. Passados cerca de nove meses do cessar-fogo que entrou em vigor em dez de outubro de 2025, as negociações seguem travadas exatamente nesse ponto. Os ataques diminuíram, mas não pararam.
Para quem acompanha o noticiário internacional de perto, o ponto de atenção não é a manchete, e sim a sequência. Muda a moldura de quem governa; continua em aberto quem controla as armas. Vale observar se o NCAG de fato entra em Gaza e se Israel libera a passagem de seus integrantes. É esse movimento que dirá se algo mudou.
Para quem só quer o essencial e se perde no vaivém de siglas, a distinção que importa é entre governo e poder. O Hamas anunciou que deixa a administração civil, mas nem Israel nem os mediadores tratam isso como o fim de sua força militar. Um governo se dissolve em uma coletiva. Um exército, não.
Para quem observa a região pela lente de risco e mercado, a variável decisiva continua sendo o desarmamento. Reconstrução, ajuda internacional e estabilidade dependem dele, e nenhuma medida administrativa o substitui. A régua útil é a dos mediadores: medir por ações verificáveis, não por intenções declaradas.
O Hamas encerrou, ao menos no papel, o arranjo em que assinava sozinho a folha de pagamento de Gaza. O que vem depois depende do que não estava no comunicado: as armas, o comando de segurança e a chegada efetiva de uma equipe que hoje despacha do Cairo.
A fórmula repetida pelos mediadores não deixa espaço para meio-termo. Uma autoridade, uma lei, uma arma. Enquanto as três frases não apontarem para o mesmo endereço em Gaza, a dissolução de segunda-feira vale mais como marco político do que como mudança na vida de quem mora ali. O que vier a seguir não será decidido por quem renuncia, e sim por quem controlar a segurança nas ruas.
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